Nossa Identidade - Agenda Assembleiana

Nossa Identidade

Todos são unânimes em reconhecer que a igreja do presente século não é mais o grande e poderoso organismo que abalou o mundo nos dias apostólicos. Aqueles que possuem algum envolvimento na obra de Deus estão convictos de que algo está faltando para o seu perfeito funcionamento. O nome de cristã é o mesmo, as características bíblicas são bem semelhantes, mas o vigor do início foi alterado. Algum enxerto prejudicou o crescimento da frondosa árvore plantada no deserto. As flores da primavera fazem-na bela, mas os frutos são mirrados, indignos para o título que possui.

Vale explicar que o termo Igreja é o conjunto de todos aqueles que foram salvos pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo, em qualquer parte do mundo. Esta Igreja é perfeita, indivisível, inquestionável, porque está edificada na Rocha que é Cristo, o Filho do Deus vivo. Ela jamais será alvo de críticas, a não ser pelos inimigos do calvário, onde a nossa reconciliação com Deus foi proclamada, mediante a cruz de Cristo. Esta Igreja é amada por todos os que aguardam a volta do Senhor.A igreja que falamos aqui é conhecida como igreja local, o grupo de pessoas que fazem parte do rol de membros da congregação, na comunidade onde vivem.

Primeiramente, esta mensagem está direcionada às Assembléias de Deus no Brasil, a extensão do corpo de Cristo que dedicamos tempo, investimos talentos, devotamos apreço. Se, todavia, outras ramificações da Igreja aceitarem esta exortação bíblica como advertência da parte do Senhor, que o mérito seja transferido a Ele.

A comparação da igreja do século XX com a igreja primitiva, aquela que brilhou nos “Atos dos Apóstolos”, embora distante, sempre será necessária para não se perder o referencial. Alguns fatores que eram simplesmente considerados comuns naquela igreja são, atualmente, mencionados apenas nos discursos. Porém, da teoria à prática, o caminho a percorrer tem sido distante. Dentre alguns fatores de destaque desta comparação, podemos citar a admissão dos novos membros; o amor entre os irmãos, a comunhão e o repartir do pão; a postura e dedicação dos ministros à oração e jejuns; os contínuos milagres e manifestações dos dons espirituais no dia a dia dos crentes; o critério na separação de obreiros para o ministério; o tratamento implacável para com os hereges e o carinho com os fracos na fé; o cuidado com os novos crentes; o posicionamento do cristão diante da sociedade contemporânea; a liturgia, etc., todavia, se nos aproximarmos um pouco mais para o século em que vivemos, surge um novo referencial. Refiro-me ao início das Assembléias de Deus no Brasil.

Creio que seria presunção da minha parte colocar a nossa igreja no mesmo nível daquele grupo de crentes mencionados no livro de Atos, ainda que haja uma série de acontecimentos que contribuem para pensar dessa maneira. Não podemos esquecer que houve outros movimentos com características semelhantes, no decorrer da história.

Esse referencial é mais próximo. O tempo, o espaço e fatores culturais são semelhantes. Embora as transformações sociais e econômicas ocorram com muita velocidade, ainda é válido partir da plataforma lançada no Pará, em 1911, para buscar nossa identidade como Igreja que aguarda o arrebatamento.

Vale a pena refletir sobre o passado para avaliar nossa posição atual. Essa avaliação serve também para diagnosticar quaisquer sintomas subversivos que tentem, porventura, ameaçar princípios e práticas capazes de interferir o pleno êxito que necessitamos manter. Tudo por causa do compromisso mútuo com a pessoa do Espírito Santo na realização das obras de Deus. Isso não quer dizer saudosismo, necessariamente, mas base de sustentação.

Não há qualquer vaidade em se fazer menção da graça e do poder de Deus que marcou o estabelecimento das Assembléias de Deus no Brasil. Essa característica essencial foi responsável pelo desenvolvimento que nos colocou em destaque, atualmente. Era este, a meu ver, o primeiro ponto que identificava a igreja: a graça e o poder de Deus.

A graça derramada entre os primeiros crentes paraenses causava curiosidade nos demais religiosos. Iam apenas para observar, até criticar, mas eram profundamente sensibilizados com a atuação da graça de Deus. Daí surgiu a expressão: “Iam, viam e ficavam”.
O poder de Deus era evidente através da diversidade de milagres que ocorriam com freqüência na igreja. Esse sobrenatural era uma extensão dos dons espirituais distribuídos imparcialmente entre o corpo de Cristo.

A ausência dos milagres gerava uma inconformação entre o povo, e a idoneidade da liderança local era questionada. Não havia necessidade de cultos especiais para a busca de milagres ou do batismo com o Espírito Santo, porque eram comuns na vida diária da igreja. Convidar pregadores de outras localidades era exceção – até porque não havia – a não ser os missionários pioneiros.
Quando os próprios pregadores locais oravam pelos enfermos não usavam de artimanhas engenhosamente articuladas, para trazer o povo para a Casa do Senhor. O povo vinha porque, além de necessitado da misericórdia divina (e sempre será) havia a certeza da existência do sobrenatural que, até aos mais vis opositores era notório. O marketing particular era repudiado. Só havia a promoção da pessoa do Senhor Jesus Cristo que realizava todas as coisas.
A simplicidade de Cristo era outra característica inegável. Um retrato fiel dos crentes da Igreja Primitiva que viviam sob os mais rígidos padrões bíblicos, ou seja, praticavam o amor, tal qual ensinado pelo Mestre. No livro de Atos 2.42-47, onde está narrado este princípio, merece destaque aqui o fato que eles perseveravam unânimes, compartilhavam seus bens entre os necessitados, em toda alma havia alegria e, sobretudo, a “singeleza de coração”. Sentimentos mesquinhos tinham que ceder passagem para a beleza da humildade de Cristo que, sendo Deus se fez homem, e como homem desceu ao nível de servo morrendo como desprezível da sociedade.

Preconceitos e discriminações ficavam na contramão e à margem da estrada do Espírito. Críticas e murmurações pelas falhas alheias eram suavizados com uma boa medida do perdão reconciliador, do qual somos embaixadores (2 Co 5.18-20).
Essa simplicidade incluía o nível intelectual. Eram bons examinadores das Escrituras Sagradas, mas, em sua maioria, eram desprovidos de títulos universitários ou teológicos. Não por opção, mas as dificuldades da época impunham-lhes estas condições. A ausência do preparo escolar talvez tenha repercutido na área organizacional da igreja atual, mas conduziu-lhes à total dependência da direção divina. Eram, no dizer do apóstolo Paulo, “as coisas loucas, fracas, vis e desprezíveis deste mundo”, que foram escolhidos para que a glória da realização não recaísse sobre o homem, mas unicamente a Deus (1 Co 1.26-30).
Eram tecnicamente fracos, mas espiritualmente poderosos.
Pastor José Wellington Bezerra da Costa
Presidente da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB)
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